O início de 2025 trouxe um novo retrato da crise no campo: os arrendatários, produtores que cultivam terras arrendadas, ou seja, que não possuem a propriedade da terra, mas pagam para utilizá-la, tornaram-se os principais responsáveis pelos pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Dados inéditos divulgados pela Serasa Experian revelam que este grupo liderou as solicitações no primeiro trimestre do ano, em um cenário marcado por instabilidade financeira, aumento de custos e crédito mais restrito.
Quem são os arrendatários e por que estão mais vulneráveis
Os arrendatários são produtores rurais que não são donos da terra que exploram economicamente. Eles firmam contratos de arrendamento para plantar ou criar gado em áreas de terceiros, pagando um valor pelo uso do solo. Esse modelo de operação, embora comum no Brasil, apresenta riscos adicionais: além dos custos da produção agrícola ou pecuária, esses produtores precisam lidar com despesas fixas de arrendamento, muitas vezes em contratos inflexíveis.
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, esse grupo opera com margens mais estreitas, o que significa que têm menos folga financeira para lidar com oscilações de mercado, como variações nos preços das commodities ou intempéries climáticas. Em momentos de retração no crédito e aumento nas exigências para concessão de financiamentos — como vem ocorrendo desde o final de 2024, esses produtores enfrentam dificuldades ainda maiores para manter a operação ativa.
Esse contexto ajuda a explicar por que os arrendatários lideraram os pedidos de recuperação judicial, com 72 solicitações registradas entre janeiro e março de 2025, superando inclusive grandes proprietários rurais. Para muitos, esse instrumento jurídico tornou-se o único caminho viável para reestruturar dívidas e evitar o colapso financeiro.
Panorama geral da recuperação judicial no agro
Ainda no primeiro trimestre de 2025, foram identificados 195 pedidos de recuperação judicial considerando apenas os produtores rurais brasileiros que atuam com o perfil de pessoa física. Esse foi o grupo de maior representatividade dentro do total de solicitações da cadeia. Em comparação com os três meses anteriores o crescimento foi de 39,2%. Confira no gráfico abaixo os dados completos com a movimentação do índice:

Para o mercado financeiro, os dados da Serasa servem como ferramenta de análise de risco. A alta nos pedidos de recuperação judicial entre arrendatários acende um alerta para instituições financeiras e cooperativas de crédito, que tendem a adotar critérios mais rígidos na concessão de recursos. Ao mesmo tempo, isso reforça a necessidade de modelos de crédito mais adequados à realidade desses produtores, que muitas vezes enfrentam instabilidades sem os mesmos mecanismos de proteção que grandes proprietários têm à disposição.

Enquanto isso, os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica também apresentaram aumento nas solicitações, foram 113 pedidos no trimestre, crescimento de 31% na comparação com o mesmo período de 2024.
Fonte: Serasa Experian.


